“O velho Inácio makuxi” e a “lenda indianizada de Noé”
uma hipótese sobre o rapsodo de Macunaíma
DOI:
https://doi.org/10.14244/rau.v17i1.516Palavras-chave:
Macunaíma, Koch-Grünberg, Makuxi, RapsódiaResumo
Dizer que a forma composicional de Macunaíma é rapsódica é mais que um truísmo: a própria categorizaçção da obra como uma “rapsódia” na segunda edição o explicita. Contudo, a apreciação crítico-teórica disso raramente passou do nível da generalidade: afirma-se que o arranjo narrativo é rapsódico, sem que se especifique qual(is) rapsodo(s) serve(m) de modelo — o rapsodo da antiguidade grega, o cantador nordestino, etc. — ou se analise a costura rapsódica. O que proponho aqui é levantar a hipótese de que é possível não só especificar um (dentre vários possíveis) modelo rapsódico para a composição de Macunaíma na figura do contador indígena de mitos, como também individuá-lo, não nas pessoas de Akúli ou de Mayuluaípu, como seria de se esperar, mas na de outro interlocutor crucial e exímio narrador nativo que aparece na obra de Koch-Grünberg, o “velho cacique Makuxi Inácio”. Se aqueles exercem um papel decisivo nos relatos que são contados, bem como em aspectos do modo de contá-los em Macunaíma, esse — é o que argumentarei — desempenha um papel determinante (mas não exclusivo) na prosódia e no arranjo ou costura entre a multiplicidade heterogênea de mitos mobilizados, ou seja, na forma da com-posição rapsódica.
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